Sendo este um blog humorístico de qualidade, não cabem aqui certas coisas, como transcrições do Levanta-te e Ri, piadas do Fernando Rocha, textos sobre a utilização antropológica diária do leitinho de vaca fresco, anedotas com a palavra “bejão” e textos opinativos sem pinga de humor. Ainda assim, a força das circunstâncias (e elas têm uns biceps danados, atenção) leva-me a escrever este texto, cujo conteúdo humoristico tem tanta graça como chupar um prego enferrujado (e isso não tem graça nenhuma, falo-vos por experiência própria). O que a seguir irão ler é como que uma espécie de desabafo sobre a insegurança nesta metrópole de seu nome Vila Nova de Alcantininhos. Não, estava a brincar, na verdade moro, vou à escola, como, durmo e sou roubado em Lisboa.
Sendo Lisboa uma grande cidade, com zonas onde habitam pessoas de lares degradados pelas fracas condições sociais, começam a ser algo comuns os roubos por parte de grupos de jovens. E, sendo verdade que a solução para os problemas de criminalidade passa por dar melhores condições de vida às pessoas, de modo a que não tenham de roubar e não possuam violência no seu espírito, também passa por melhorar as condições de segurança.
E são essas condições de segurança, que, em Lisboa, roçam o ridículo, muito por culpa da organização das forças que por elas zelam.
Um dos fenómenos mais fascinantes são os seguranças privados. Eles são o “viciado em pornografia” da segurança: vêem vêem mas não fazem nada. Por diversas vezes fui abordado por assaltantes com seguranças deste género por perto, que fazem tanto como eu ao domingo de manhã, ou seja nada. É que ficam estáticos! Pouco fazem para cumprir o seu dever, que é zelar pela segurança dentro do espaço a que foram designados. Um dever sem dúvida falhado. No entanto, quando vou ao médico, o porteiro, que é um desses seguranças, pergunta com cara de Valentina Torres zangada: “olhe desculpe lá, você vai aonde?”, ao que eu respondo “vou ao 9º andar, ao consultório do Dr. Antonino”, ao que ele diz “’tá bem, ‘tá bem”. Eu podia ter uma bomba escondida debaixo do sovaco ou até na região púbica, mas bastar-me-ia dizer “vou lá cima ao consultório do Dr. Antonino” para passar por esta rígida e impenetrável segurança. E isto irrita-me profundamente, porque os seguranças privados andam por todo o lado e não fazem nada, o que me leva a concluir que se fizessem alguma coisa Lisboa seria mais segura.
Mas a acção e metodologia da própria polícia deixa também, infelizmente, muito a desejar. Primeiro, há poucos polícias nas ruas, o que nos leva a uma questão importante: os polícias que ficam nas esquadras. Já experimentaram ir a uma esquadra? Eu já, quando tentei roubar o trém de cozinha da minha tia-avó. Há um polícia a tratar da papelada na secretária, e outro a tratar da papelada na secretária, e mais outro a tratar da papelada na secretária. Aparte destes, vêem-se mais uns quantos agentes da autoridade a levar a cabo importantes tarefas como fazer uma sandes de fiambre sem se esquecer da pôr a manteiga, organizar por ordem alfabética o arquivo onde constam o número de saias que a mulher de cada polícia possui ou ainda pensar em objectos que possam ser úteis para tirar a cera dos ouvidos - até agora ja surgiram, na esquadra do Campo Grande, as seguintes ideias: clip, lápis, unhaca do dedo mendinho e big mac.
Outra questão magnífica são as câmaras de segurança. A sua eficácia e utilidade são semelhantes às de um ponta-de-lança amputado. Até certa altura na minha vida pensava que havia alguem a ver “do outro lado” o que a câmara filmava, e que, assim, as câmaras de segurança de por exemplo o metro, tanto dentro das carruagens como nas estações, garantiam a segurança das pessoas. Mas não, não está ninguém a ver. Por isso aquele objecto só serve para uma suposta posterior identificação do individuo criminoso, identificação essa que nunca ocorre porque a importância que as autoridades dão a este tipo de situação (grupos de jovens que assaltam outros jovens, ou mesmo adultos) é, erradamente, nula. Pois bem, são estes “crimes de rua” aos quais se dá pouca relevância que criam um ambiente de insegurança na cidade, impedindo o jovem adolescente de andar por aí sem medo de que lhe roubem o telemóvel ou a carteira. Tem que existir mais esforço por parte das autoridades de modo a que, para além de uma prevenção mais eficaz, se apanhem os malfeitores, uma vez o crime cometido. O que raramente acontece devido à apatia policial em relação a este tipo de criminalidade. É necessário mudar esta mentalidade, modernizar os processos burocráticos policiais de forma a que não haja tanta papelada (a denúncia de um crime dura no mínimo uma hora), e, fundamentalmente, implantar uma nova gestão dos recursos humanos policiais, de modo a colocar mais polícias nas ruas ao invés de permanecerem nas esquadras.
Finalmente, um “breve apontamento” sobre o racismo e o facto de algumas mentalidades ligarem a criminalidade a certas raças: já fui abordado tanto por brancos, como por pretos, como por ciganos. O crime não escolhe cor; quem pensa o contrário está errado.
Bem, fico por aqui, até porque isto já vai comprido, e dos nossos seis leitores mensais dois tiveram um ataque de caspa simultâneo, um descobriu que tinha seios, um foi dormir, um está a dizer “epá este gajo até tem razão no que diz. Mãe, mãe, ja compraste aqueles óculos para esta miopia que me impede de ler correctamente os vocábulos?” e outro é meu pai que está a dizer, a alto e bom som “oh yeaahhh”. Ponham mas é este texto num tupperware amarelinho.
David Erlich "Xuma"